'Era como se a casa pudesse machucar a gente': o empreendedorismo social que transforma moradia em dignidade no RN

  • 07/06/2026
(Foto: Reprodução)
Fernanda Silmara transformou a própria experiência em um projeto de impacto social Pedro Trindade/Inter TV Cabugi O barulho da chuva não era apenas som dentro da casa da potiguar Fernanda Silmara. Era aviso. Quando começava a chover, a família arrastava colchões, desviava baldes das goteiras e tentava proteger o pouco que tinha da água que atravessava o telhado. “Não era vergonha de ser pobre”, relembra ela, hoje com 30 anos. “Era vergonha do mofo, do cheiro forte e das goteiras. Era como se, a qualquer momento, aquela casa pudesse machucar a gente”, lembra Fernanda, que se formou em engenharia civil. Mas essa forma de se relacionar com o ambiente onde vivia mudou em 2017, quando a própria casa foi reformada. “Foi aí que comecei a entender que construção civil não é só obra. É transformação social”, diz. A partir dessa experiência, ela criou a ReforAMAR, associação sem fins lucrativos que realiza reformas em casas e espaços comunitários em situação de vulnerabilidade no Rio Grande do Norte. Desde a criação da ONG, em 2018, já foram realizadas 68 reformas em casas e instituições sociais. Dos 167 municípios do Rio Grande do Norte, cinco já receberam ação da ReforAMAR: Natal, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Extremoz e Macaíba. Todos na Grande Natal, região Leste do estado. Em média, cerca de dez obras são executadas por ano, embora esse número varie conforme a captação de recursos. Em 2025, por exemplo, a organização conseguiu realizar aproximadamente 20 reformas sociais. Ainda assim, a fila cresce mais rápido do que a capacidade de atendimento. Hoje, mais de 300 famílias aguardam por uma reforma. Algumas estão cadastradas desde 2018. Entre a reforma e a dignidade Antes e depois da reforma no banheiro de Geilza França, contemplada com a ação da ONG Cedidas/ReforAmar Os relatos das famílias atendidas ajudam a traduzir o impacto das obras para além da estrutura física. Uma das reformas beneficiou uma família que não possuía banheiro dentro de casa. Havia apenas um espaço improvisado no quintal, com vaso quebrado e sem instalação adequada. “Quando entraram na casa reformada, a primeira coisa que quiseram ver foi o banheiro”, lembra Fernanda. “E aquilo mexeu muito comigo, porque para muitas pessoas banheiro é algo tão básico que nem percebem o privilégio que têm”. Essa sensação de pertencimento também aparece no relato de Geilza Lidiele França, de 33 anos e mãe de dois filhos. Ela mora há cerca de 12 anos na mesma casa com o marido, que é o único a ter renda em casa. Ele trabalha como moto entregador e fatura mensalmente cerca de um salário mínimo. “Hoje eu tenho um ambiente mais iluminado, eu tenho um ambiente mais protegido, não tem mais goteira, que era meu principal problema. Meu banheiro foi totalmente reformado e ficou a coisa mais linda do mundo”, relata. “Hoje em dia tomar banho é a maior alegria do mundo, porque (o banheiro) está tão lindo. Você fica feliz em estar dentro da sua casa”. Severina Madureira Nogueira, de 61 anos e aposentada que recebe um salário mínimo por mês, também foi beneficiada. Antes da reforma, ela morava de favor por não conseguir recuperar a própria residência, que considerava praticamente inabitável. Quando recebeu a notícia de que havia sido contemplada, espalhou a informação para toda a família. “Minha casa hoje é um palácio à vista do que estava antes. O povo passa em frente aqui em casa e diz: ‘que coisa linda!’ É muita emoção ver minha casa tão bonitinha do jeito que está”. Para a assistente social Walba Alves de Melo, os impactos também atingem a saúde emocional e as relações familiares. “São três pontos: insegurança, estresse e conflitos”, afirma. “A coabitação em espaços reduzidos, muitas vezes superlotados e sem privacidade, transforma o ambiente doméstico em um local de tensão contínua”. ReforAmar: o empreendedorismo social que transforma moradia em dignidade no RN Segundo ela, a moradia influencia diretamente a autoestima e o sentimento de pertencimento. “A casa é mais que abrigo. Ela é extensão da identidade. Quando a moradia é indigna, a pessoa não separa a condição da casa da condição dela mesma. Discutir habitação não é apenas falar de construção civil ou infraestrutura, mas também de cuidado, cidadania, saúde, inclusão e justiça social”. Para a presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Norte (CAU-RN), Patrícia Luz, a precariedade habitacional vai além da estrutura física da moradia. “Quando uma família vive em uma casa com infiltração, mofo, goteiras ou em áreas sujeitas a desabamentos, estamos falando da violação de um direito básico”, afirma. “Moradia adequada não deve ser vista como privilégio, mas como um direito que precisa ser garantido com responsabilidade social e compromisso com a sustentabilidade ambiental”. A presidente em exercício do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), Ana Adalgisa, destaca a necessidade de políticas públicas permanentes. “Um dos grandes desafios hoje do Brasil e do Rio Grande do Norte é o direito à moradia de qualidade para população”, afirma. “A gente precisa ter uma política habitacional que pense a sustentabilidade, que tenha infraestrutura básica e que seja pensada urbanisticamente”. As condições de moradia no RN Problemas estruturais em casas antes delas serem atendidas pela ONG ReforAMAR Cedidas/ReforAmar Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo estudo da Fundação João Pinheiro com base em dados do IBGE, o Rio Grande do Norte registrava, em 2023, déficit habitacional de 99.623 moradias, o equivalente a 7,82% dos domicílios do estado. Os indicadores mais recentes mostram que a precariedade vai além da falta de casas. Em 2025, o estado tinha 58 mil domicílios com paredes sem revestimento; 21% possuíam piso de cimento; 71,1% tinham telhado sem laje; e quase 55% não eram atendidos pela rede geral de esgotamento sanitário. Em cerca de 12% das residências, a água chegava apenas entre um e três dias por semana. Na prática, esses dados representam milhares de famílias convivendo diariamente com infiltrações, improvisos sanitários, risco de doenças e insegurança dentro do próprio lar. Precariedade habitacional no RN IA Um modelo que nasce da experiência pessoal e vira estrutura de impacto Bazar funciona em um espaço cedido por uma empresa de construção. A localização fica na Zona Sul de Natal Pedro Trindade/Inter TV Cabugi A ReforAMAR estruturou sua atuação em três frentes conectadas: reformas habitacionais, capacitação profissional e geração de receita. A proposta é criar um modelo capaz de sustentar o impacto social sem depender exclusivamente de doações. Um dos pilares é o bazar solidário, criado em 2022 em um espaço cedido por uma empresa da construção civil no bairro de Candelária, em Natal. O local comercializa móveis, eletrodomésticos, roupas e utensílios doados, arrecadando em média R$ 12 mil por mês, com pico de R$ 18 mil. A ONG também capta recursos por meio de editais, parcerias com empresas, oficinas, eventos beneficentes, rifas, vaquinhas e doações recorrentes. Além de financiar projetos, o bazar fortalece a economia circular. Em quatro anos, cerca de 22 mil itens, o equivalente a 150 toneladas de materiais, foram reaproveitados por meio de revenda social, doações ou utilização direta nas reformas. Parte dos produtos é destinada às famílias atendidas, enquanto a outra é vendida a preços acessíveis. Entre 2022 e maio de 2026, mais de 100 famílias em situação de vulnerabilidade adquiriram móveis e eletrodomésticos por valores simbólicos. Entre os itens mais recebidos estão sofás, camas, guarda-roupas, portas, janelas, geladeiras, fogões e máquinas de lavar, muitos deles reutilizados nas obras. A organização também mantém parcerias voltadas ao reaproveitamento e à logística reversa, incluindo a triagem de eletrodomésticos e eletrônicos sem condições de uso para reaproveitamento de peças e descarte adequado. Hoje, a ReforAMAR opera com um custo médio mensal de R$ 55 mil, valor que inclui reformas, equipe, logística, materiais e capacitações. Cada obra custa, em média, R$ 40 mil e pode durar até quatro meses. Os números ajudam a explicar a demanda pelo projeto. Em 2025, o custo médio do metro quadrado da construção civil no Rio Grande do Norte chegou a R$ 1.808,67, segundo o SINAPI. No mesmo ano, o salário mínimo era de R$ 1.518. Já em 2024, 70,1% da população potiguar vivia com até um salário mínimo, o equivalente a sete em cada dez pessoas, de acordo com o IBGE. “Muitas famílias falam: ‘eu jamais teria condições de reformar essa casa’”, relata Fernanda. “Porque as pessoas às vezes olham e pensam: ‘ah, mas ela trabalha’. Só que ter trabalho não significa conseguir reformar uma casa”. Um negócio de impacto social Para Mona Nóbrega, gerente de Negócios de Impacto do Sebrae RN, a ReforAMAR combina geração de receita e impacto social. “A ReforAMAR alinha geração de receita com resolução de um problema social através de reformas subsidiadas para pessoas em situação de vulnerabilidade”, explica. “Essa modelagem de múltiplas fontes de monetização permite crescimento financeiro e ampliação do impacto positivo”. Segundo ela, o bazar é peça central dessa estratégia. “A economia circular vira produto para gerar recursos suficientes para investir nas reformas”, afirma. “Objetos e móveis que seriam descartados passam a ter nova vida útil e ajudam a financiar moradia digna”. Mona destaca ainda que esses modelos ampliam o acesso a soluções para pessoas em situação de vulnerabilidade. “Pessoas em situação de vulnerabilidade muitas vezes passam a vida inteira em moradias precárias sem serem vistas como público-alvo de soluções públicas ou privadas”, afirma. “O empreendedorismo social consegue criar modelos mais acessíveis porque nasce, muitas vezes, da vivência direta desses problemas”. A trajetória da ReforAMAR reflete justamente essa realidade: um projeto de impacto criado por uma mulher que transformou a própria experiência em ação social. A história da ONG também acompanha o avanço do empreendedorismo feminino no Rio Grande do Norte. Dados do Sebrae mostram que o número de empresas com mulheres no quadro societário cresceu 78,6% nos últimos seis anos, passando de 79.658 para 142.273. Hoje, 45% das empresas potiguares têm participação feminina entre os sócios. Na construção civil, porém, elas ainda representam apenas 17,5% dos negócios, o menor percentual entre os setores econômicos do estado. Mulheres nos pequenos negócios do RN IA Capacitação, renda e expansão do modelo Entre outubro de 2025 e maio de 2026, a ReforAMAR capacitou 50 pessoas LGBTQIA+ em um curso gratuito de elétrica, hidráulica, pintura, marcenaria e empreendedorismo. A iniciativa busca ampliar oportunidades de renda em um setor com alta demanda por mão de obra qualificada. Dos participantes, três ingressaram na construção civil durante a formação. Além do ensino técnico, os alunos recebem orientação sobre formalização profissional, MEI e captação de clientes. A capacitação integra a estratégia da ONG de combinar geração de renda e impacto social, enquanto parte da arrecadação financia reformas para famílias em situação de vulnerabilidade. O fortalecimento da ReforAMAR contou com o apoio do Sebrae RN, por meio dos programas Regenera, Pré-Acelera e Acelera. “O Sebrae ajudou a gente a enxergar o bazar não apenas como um espaço de arrecadação, mas como uma estratégia de sustentabilidade financeira e economia circular”, afirma Fernanda. “Conseguimos entender melhor como transformar a capacitação profissional em uma ferramenta real de geração de renda, empregabilidade e impacto social”. Hoje, a ONG afirma ter um modelo mais estruturado de sustentabilidade, principalmente por meio do bazar, mas ainda depende de parcerias e doações para ampliar suas atividades. ReforAMAR e a missão de transformar lugar em lar ReforAMAR cumpre a missão de transformar lugar em lar Cedidas/ReforAmar A experiência da ReforAMAR mostra que o problema da moradia vai além da falta de casas e envolve também aspectos emocionais, econômicos e sociais. A iniciativa aposta no empreendedorismo social como alternativa para combinar assistência, geração de renda, economia circular e capacitação profissional. “Uma casa digna muda como a pessoa se vê e como ela acredita que merece viver”, resume Fernanda. Para muitas pessoas, uma descarga funcionando é apenas um detalhe cotidiano. Para algumas famílias atendidas pela ReforAMAR, foi a primeira vez que um banheiro deixou de ser improviso para virar dignidade. O que a ONG tenta reconstruir não é apenas paredes. É a sensação de finalmente poder chamar um lugar de “meu lar”. Serviço da ReforAMAR Endereço: Rua Aguinaldo Gurgel Júnior, 424, bairro Candelária, Natal - RN Funcionamento presencial: sexta-feira e sábado, das 9h às 15h. Funcionamento online: de terça-feira a sábado, das 9h às 15h. WhatsApp: (84) 98820-2018 Bazar ReforAmar IA

FONTE: https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2026/06/07/era-como-se-a-casa-pudesse-machucar-a-gente-o-empreendedorismo-social-que-transforma-moradia-em-dignidade-no-rn.ghtml


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