João Câmara, 'Terra dos Abalos': maior terremoto do RN completa 40 anos e mudou a sismologia no Brasil

  • 18/07/2026
(Foto: Reprodução)
João Câmara, 'Terra dos Abalos': maior terremoto do RN completa 40 anos e mudou a sismolog Eram pouco mais de 3h da manhã quando o barulho começou. Antes que moradores conseguissem entender o que estava acontecendo, paredes balançaram, telhas caíram e uma cidade inteira acordou assustada. Em poucos segundos, João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte, viveria a madrugada mais dramática de sua história, com reflexos que foram além: mudando a trajetória da sismologia brasileira e provocando o maior êxodo da história do município. Naquele 30 de novembro de 1986, um terremoto de magnitude 5,1 atingiu o município na região do Mato Grande potiguar. O sismo foi o maior já registrado no Estado e um dos maiores do Brasil. Milhares de imóveis foram devastados e cerca de 10 mil pessoas ficaram desabrigadas. 📳 Clique aqui para seguir o canal do g1 RN no WhatsApp Cerca de 4 mil casas foram afetadas pelos abalos Arquivo LabSis/UFRN Quase quarenta anos depois, a lembrança daquela madrugada continua viva na memória de quem presenciou o episódio. (leia relatos abaixo) O terremoto e outros sismos que a cidade e a região registram desde então são explicados pela 'Falha de Samambaia', a maior do país e que corta os municípios vizinhos. A gravidade do tremor também fez com que os brasileiros percebessem que o Brasil não é imune a abalos mais fortes. Segundo o geofísico e especialista em sismologia, Aderson Nascimento, a localização geográfica de João Câmara faz com que sejam frequentes os registros. "É uma sismicidade que ainda ocorre." (entenda mais abaixo) ➡️"João Câmara, Terra dos Abalos" é uma série do g1 que relembra os 40 anos do maior terremoto já registrado no Rio Grande do Norte e um dos maiores do Brasil. Outras duas reportagens serão publicadas sobre o tema. 'Um tremor diferente' Os tremores vinham se repetindo havia meses. A cidade já convivia com os abalos sísmicos de forma mais frequente desde junho, mas na madrugada do dia 30 não houve tempo para pensar. Antiga ACDB, em João Câmara Arquivo Josinoi Ferreira Na ocasião, centenas de moradores participavam de uma festa na Associação Clube dos Dirigentes Lojistas (ACDB), um dos principais pontos de encontro da cidade. Entre eles estavam o radialista Josinoi Ferreira, de 60 anos, e o então vereador Osório Avelino, 73. Josinoi havia acabado de sair do salão quando sentiu o chão tremer. "Estava no bar, fui comprar um refrigerante. Quando vi a terra tremendo como se estivesse sendo destruída com compressores, saí imediatamente, fui o primeiro a pular a roleta na ACDB". Também na festa, Osório percebeu imediatamente que aquele tremor era diferente dos anteriores. "Na hora do abalo, nós ficamos sem luz e sem comunicação. Ninguém tinha coragem de ficar dentro de casa, porque balançou tudo", conta. Josinoi Ferreira, 60 anos, radialista e morador de João Câmara Longe do show, a então merendeira Francisca Vieira, de 76 anos, já havia colocado os dois filhos para dormir. Ela já estava em alerta com os frequentes sismos. Durante muitas noites, ela e a família deixavam a cidade para dormir em um sítio de parentes, com medo de que a casa não resistisse a um novo abalo. A dimensão da tragédia levou o então presidente José Sarney a visitar João Câmara poucos dias após o terremoto. Na ocasião, ele anunciou apoio para a recuperação do município e autorizou o envio de equipes técnicas, recursos para reconstrução de moradias e especialistas para acompanhar a sequência de tremores. Presidente José Sarney e o ministro do Interior Costa Couto estiveram em João Câmara Arquivo Osório Avelino Soares Falha de Samambaia Quando o tremor terminou, ninguém sabia exatamente o que havia acontecido e o porquê. Muitos deixaram as casas apenas com a roupa do corpo. A cidade ficou sem energia elétrica e comunicação. As primeiras horas foram marcadas pelo medo e incerteza. Havia relatos de imóveis rachados, paredes no chão e famílias inteiras reunidas em praças e terrenos abertos, receosas de voltar para dentro de casa. Autoridades tentavam entender a dimensão do desastre, que nessas proporções, em área urbana, era considerado uma novidade no Brasil. O medo da população rapidamente abriu espaço para desinformação. Havia quem acreditasse que a cidade iria afundar ou que havia um rio caudaloso subterrâneo sob João Câmara. Também circulavam previsões de cunho religioso de fim do mundo. A verdade é que o terremoto teve origem na chamada Falha de Samambaia, uma fratura geológica que corta os municípios de João Câmara, Parazinho, Poço Branco e Bento Fernandes. 🕳️ 'Falha de Samambaia' é uma grande fratura nas rochas abaixo do solo e considerada a maior estrutura geológica ativa conhecida no Brasil. 🪨 Ao longo de milhões de anos, os blocos de rocha dos dois lados dessa fissura acumulam lentamente tensões provocadas pelos movimentos naturais da Terra. 💥Quando essa pressão ultrapassa o limite que a rocha suporta, ocorre um deslocamento repentino, liberando uma grande quantidade de energia em forma de ondas sísmicas. João Câmara é cortada pela Falha de Samambaia g1 No Brasil tem terremoto? "Um dos aspectos fundamentais do episódio de João Câmara foi o de alertar. Desde então, as pessoas se deram conta que o Brasil não é imune de terremotos", aponta Aderson Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN). O terremoto de 5,1 não foi um episódio isolado. Desde junho daquele ano, João Câmara já registrava uma sequência de tremores, que seguiram nos meses e até nos anos seguintes. Segundo pesquisadores que acompanharam a sequência sísmica, o problema deixou de ser apenas estrutural e passou a ser psicológico. "Mesmo pequenos tremores, mas toda hora tremendo, mexeu com as pessoas. Não é só o dano físico.O que abalou mesmo é que você tinha o tremor, depois você tinha as réplicas", explicou. O tremor de João Câmara foi um dos mais fortes do Brasil - os dois maiores foram, ambos em 1955, no Espírito Santo e Mato Grosso. O que mudou na sismologia? O maior terremoto do Rio Grande do Norte mudou a forma como o Brasil estuda os abalos sísmicos. O geólogo Joaquim Mendes Ferreira, que integrou a equipe da UFRN responsável por acompanhar a situação de João Câmara desde 1983, diz que a sequência teve papel central no monitoramento de terremotos no país. "A história é dividida entre antes e depois de Cristo. A sismologia no Brasil, de certa maneira, também é dividida: antes de JC e depois de JC [João Câmara]", resume o professor. Joaquim Ferreira é uma das referências nacionais no assunto LabSis/UFRN Colega de equipe de Joaquim, o técnico em eletromecânica e especialista em sismologia Eduardo Alexandre acrescenta que a importância de João Câmara vai além da magnitude na Escala Richter. (entenda a escala no infográfico abaixo) Segundo ele, a importância do episódio também é ligada ao fato de ter dado origem ao período mais longo sequência sísmica já registrada no Brasil. "É a região que mais demorou registrando tremores, por mais de 10 anos. A evolução sísmica de João Câmara abriu novos caminhos de conhecimento nessa área", afirma. Os tremores, inclusive, nunca cessaram completamente - mas ocorrem com menor intensidade. A última atividade sísmica registrada pelo LabSis em João Câmara ocorreu em 19 de fevereiro deste ano, de magnitude 1,7. Com isso, o município do Mato Grande potiguar tornou-se um laboratório natural para pesquisas. Atraiu cientistas brasileiros e estrangeiros e impulsionou investimentos que ajudaram a fortalecer a sismologia como área de pesquisa. "Vieram para João Câmara cientistas de ponta. De São Paulo, de Brasília, do Japão, dos Estados Unidos, Venezuela, Inglaterra, Grécia", conta José Ribamar Leite, prefeito da cidade em 1986. A cidade também ajudou a consolidar o Laboratório Sismológico (LabSis/UFRN). Fundado na década de 1970, a atuação da unidade era focada na elaboração de relatórios até 1986. Na era "antes de JC", o grupo de sismologia da universidade era formado por apenas três professores. Quarenta anos depois, a estrutura é diferente. Pelo menos 15 pessoas, entre professor coordenador, equipe técnica e estudantes de graduação e pós-graduação, atuam diretamente hoje na área da sismologia. Dimensão dos terremotos g1 🔁É possível um novo grande abalo em João Câmara? Sim. Segundo especialistas, não existe tecnologia capaz de prever quando um terremoto acontecerá. A vida em barracas Sem confiança para voltar às casas após o abalo de 1986, muitas famílias passaram as semanas seguintes vivendo em barracas montadas ao lado das casas e em locais abertos como pátios e praças. "Recebemos doação de umas lonas azuis de uma empresa de São Paulo. Era uma situação tão nova que recebemos lonas pretas do Governo, mas as lonas pretas esquentavam demais e provocavam queimaduras no povo", lembra o ex-prefeito. População se abrigou em barracas Arquivo LabSis/UFRN O atendimento médico também precisou ser improvisado. Um circo instalado na cidade foi transformado em hospital de campanha. O Exército participou da montagem da estrutura. Circo foi transformado em hospital de campanha na praça da Igreja Matriz Arquivo Osório Avelino Soares Nas semanas seguintes ao tremor, João Câmara viveu uma cena que seus moradores jamais esqueceriam. Dos cerca de 25,8 mil habitantes da época, aproximadamente 10 mil deixaram o município. Caminhões de mudança cruzavam diariamente as ruas levando móveis, roupas e tudo o que fosse possível carregar. Josinoi Ferreira decidiu contar. "Das 7h até às 2h da madrugada eu contei 250 caminhões de mudança deixando João Câmara. Isso dava uma dor no coração, eram familiares, amigos, pessoas próximas que a gente não sabia se voltaria a ver", diz. Houve quem vendesse casas e terrenos por valores muito abaixo do mercado, trocasse propriedades por alimentos ou simplesmente cedesse o patrimônio em troca do transporte para outra cidade. Abrigos de lona eram colocados ao lado das casas Arquivo LabSis/UFRN As ruas foram ficando vazias. "Só ficou aqui quem não tinha condições de sair", lembra o então vereador Osório. Ele acrescenta que deixou os pais em Natal e voltou para se incorporar à Defesa Civil no apoio aos moradores. "A gente ia nos caminhões entregar comida às pessoas e dava uma vontade de chorar imensa. Era uma cidade fantasma", afirmou. Osório Avelino Soares, 73, aposentado e ex-vereador de João Câmara A estimativa é de que 4 mil imóveis foram atingidos, em diferentes intensidades. Muitas já colecionavam rachaduras em virtude dos sismos anteriores. "Dez mil saíram. Parte voltou gradativamente para suas casas, mas parte ainda está em cidades vizinhas e nunca mais quis voltar", comenta o ex-prefeito. Francisca Vieira também deixou a cidade naquele período. O marido conseguiu um veículo do órgão onde trabalhava para levar a família até Natal. "As pessoas subiam nos caminhões sem saber para onde iam, só queriam deixar a cidade, era um desespero", conta. Destroços podiam ser vistos por toda a cidade Arquivo LabSis/UFRN Reconstrução Conforme os tremores perderam intensidade e a cidade começou a ser reconstruída, parte das famílias decidiu voltar e recomeçar praticamente do zero. Já a partir de 1987, casas foram recuperadas, parte das famílias retornou e comércio voltou a funcionar. Francisca foi uma delas: "João Câmara é a nossa cidade, nossa raiz. Vivi tudo aquilo, mas não aguentei ficar muito tempo longe daqui. Meu esposo nem esperou a ajuda do governo, ele mesmo reformou nossa casa e moramos aqui até hoje", relatou a aposentada. População temia que chão "se abrisse" Arquivo LabSis/UFRN

FONTE: https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2026/07/18/joao-camara-terra-dos-abalos-maior-terremoto-do-rn-completa-40-anos-e-mudou-a-sismologia-no-brasil.ghtml


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